Vítima #1

Vítima #1




Mazzi então aguardou, aguardou, e aguardou.

Ela estava firme, paciente como nunca. Sabia que, naquele momento, o tempo jogava a seu favor. A noite já havia engolido o fim de tarde, e a escuridão trazia consigo o silêncio conveniente — sem vizinhos curiosos, sem movimentos estranhos. Ninguém para notar nada, ninguém para levantar perguntas. Era o cenário perfeito.

Mas isso não tornava as coisas menos angustiantes.

Ela observava, impotente, o homem trocando lentamente as fotos de sua filha no programa de imagens. Cada deslizar de imagem parecia um golpe. Ele olhava para aquelas fotos como se estivesse diante de uma apresentação de slides feita só para ele, um espetáculo privado que lhe causava prazer doentio. E Mazzi queimava por dentro. Sua vontade real era simples e brutal: arrebentar a janela, invadir o quarto como um furacão e esmagar tudo, ele principalmente. Sem tática, sem plano, só raiva crua.

Mas não. Ela se forçou a conter esse impulso. Teria que optar por uma invasão um pouco mais… “adequada”, digamos.

Foi só quando o homem fechou o notebook com uma lerdeza teatral e se levantou da cama, caminhando até a cozinha para preparar algo para comer, que Mazzi soube: era agora.

Com o peso de quem não podia falhar, ela abriu a janela com uma precisão cirúrgica. Nem um rangido. Nenhum estalo. Escorregou para dentro do quarto com a mesma discrição e, ao pisar no chão, respirou fundo, fechando a janela novamente. Os olhos varreram o cômodo, até se fixarem na porta entreaberta. Ela conseguia vê-lo lá fora, montando seu lanche com uma calma tão ofensiva que dava nojo. Como se não houvesse nada de errado no mundo. Como se ele não fosse uma aberração.

Mazzi se moveu com cautela pelo quarto. Sua atenção estava voltada para um destino muito específico: a cômoda encostada na parede lateral.

Lá, começou a vasculhar gaveta por gaveta. Seus dedos se moviam rápidos, mas silenciosos, como se procurassem uma agulha num palheiro emocional. Fotos. Mais fotos. Não apenas de Miska. Rostos desconhecidos, crianças, adolescentes, até alguns adultos — todos empilhados como se fossem meros objetos de uma coleção podre.

Era um museu particular da perversidade daquele homem.

Cada nova foto era um golpe. A cada imagem que puxava daquelas gavetas imundas, Mazzi sentia uma parte de si escorrer por entre os dedos. Talvez fosse sua humanidade que estivesse indo embora, talvez sua sanidade... ou, quem sabe, as duas ao mesmo tempo, se dissolvendo em um poço escuro que ela não teria mais forças para conter.

E então, no meio daquilo tudo, sua mão esbarrou em algo que não deveria estar ali — não entre fotos, não entre memórias distorcidas. Era metálico, frio, pesado. Ao puxar com mais cuidado, os olhos de Mazzi encontraram uma pistola com um silenciador ao lado, perfeitamente encaixado no recorte de veludo da gaveta como se tivesse sido colocado ali com carinho. Um instrumento de precisão esperando por um momento como aquele.

Ela não pegou imediatamente. Primeiro, como quem tenta se agarrar a um último lampejo de racionalidade, decidiu continuar vasculhando o quarto. Foi até os armários, olhou sob a cama, puxou outras gavetas, buscando por qualquer coisa que não fosse mais uma lembrança contaminada. E encontrou. Um par de luvas.

Aquela descoberta, por mais banal que parecesse, foi mais valiosa que a arma. Luvas significavam anonimato, significavam liberdade de agir sem deixar rastros, sem deixar digitais. Ela sabia muito bem que um detalhe como esse podia significar o fim da linha. Mas ali, diante das luvas, sentiu como se o próprio destino estivesse alinhando as peças por ela.

Mazzi voltou à cômoda e, dessa vez, pegou os dois objetos. As luvas primeiro, que vestiu com a firmeza de quem aceita que não tem mais volta. Depois a pistola, que analisou com olhos atentos e frios, girando-a nas mãos como se pudesse decifrar tudo o que aquele objeto já presenciou. O silenciador encaixou-se à arma com um clique preciso.

Ela ficou ali, imóvel por alguns segundos que pareceram se arrastar como horas. O plano, originalmente, era outro. Ela queria fazer aquele homem sentir na pele o terror que havia causado, golpe por golpe, como uma sentença lenta e merecida. Mas agora, com aquela arma nas mãos, o jogo havia mudado. A possibilidade da morte limpa, rápida, fria... era estranhamente reconfortante.

Foi então que o rangido de uma porta partiu o silêncio. Um estalo seco, mas suficiente. Mazzi virou-se bruscamente para a esquerda.

Ele estava ali.

O homem parou no batente da porta. O susto estampado no rosto. Os olhos arregalados. Por um instante, pareceu encolher, o corpo se retraindo, como se instintivamente já soubesse o que o aguardava.

— O-O que que você tá fazendo na minha casa, sua maluca?! — a voz dele saiu trêmula, um misto de choque e pavor. O tom era quase cômico, como se a presença de Mazzi ali fosse absurda, como se ele realmente não fizesse ideia do motivo. Mas ela via nos olhos dele, o medo não era só pela invasão. Era pela culpa. Ele sabia.

— S-sai da minha casa! A-AGORA! Ou eu... EU VOU CHAMAR A POLÍCIA! — engasgou-se com as próprias palavras, tentando soar autoritário, mas falhando miseravelmente.

Mazzi não respondeu. Nem sequer hesitou. Apontou a arma para as pernas dele e puxou o gatilho. Três vezes.

Um, dois, três.

O estampido abafado pelo silenciador contrastava com os gritos agudos e desesperados que vieram logo em seguida. O corpo dele despencou para trás com violência, como uma marionete sem fios, se debatendo no chão enquanto uma poça escura de sangue começava a se espalhar sob suas pernas destroçadas. Os vidros da casa eram à prova de som, claro que seriam. Um detalhe conveniente para ele até ali... e agora, para ela.

Mazzi caminhou devagar em direção ao corpo contorcido, os passos pesados, mas constantes. Os gritos já começavam a perder força, virando grunhidos abafados e intermitentes.

— “A gente se esbarra por aí”… foi isso que você disse, né? — murmurou, quase como se estivesse puxando assunto, enquanto observava o homem se mover como uma barata ferida, tentando escapar de um destino que ele mesmo merecia.

Sem cerimônia, ela começou a desferir chutes contra o estômago dele. Um, depois outro, e mais outro, até que o som seco das pancadas se misturou com o baque úmido de um vômito forçado. O conteúdo se espalhou pelo chão junto ao sangue, formando um líquido grotesco, um retrato fiel da podridão que ele representava.

Mazzi manteve os olhos fixos nele, o rosto sério, quase inexpressivo. Só o olhar denunciava a fúria: estreito, frio e decidido.

— Não se preocupa, querido… — disse em tom baixo, quase debochado, antes de acertar um chute seco e violento na boca dele.

Ouviu-se o som de dentes se partindo, estalando como vidro fino. O sangue jorrou com mais intensidade agora, escorrendo pela mandíbula e preenchendo os cantos da boca dele como se fosse espuma rubra. Ele tentou falar alguma coisa — talvez um pedido de socorro, talvez só mais uma mentira. Mas a voz não vinha mais. Só ruídos frágeis e úmidos.

— Eu só vim te conhecer um pouco melhor.. — completou Mazzi, antes de desferir mais um chute, agora no rosto dele. Um golpe final, cruel, mas necessário.

O corpo dele ainda se movia, mas por pura inércia. A consciência estava escapando, drenada pela dor, pela humilhação e pela perda de sangue.

Mazzi ergueu a arma com firmeza, mirando diretamente a cabeça do homem estendido no chão. O sangue já escorria em rios densos debaixo dele, mas ele ainda respirava pateticamente.

— Fica longe da minha filha, filho da puta. — disse ela, sem elevar o tom, mas com uma frieza que doía mais do que qualquer grito.

E então atirou.

O som abafado do disparo foi discreto, mas o efeito foi imediato. O corpo tremeu uma última vez e depois silenciou por completo. A vida escapou dali como fumaça.

Mazzi deixou a arma escorregar das mãos. Ela caiu no chão com um som insignificante — como se, naquele instante, o peso do que acabara de acontecer já fosse grande o suficiente para que qualquer ruído se tornasse irrelevante.

Ela ficou ali, parada, observando o cadáver. Os olhos fixos, mas vazios. E então a cabeça começou a pesar. Pensamentos vieram em ondas desordenadas, como um mar revolto depois de uma tempestade.

Mazzi nunca pensou que chegaria tão longe.

Nunca achou que teria que ultrapassar um limite tão brutal.

Nunca pensou que, um dia, teria o sangue de alguém nas mãos.

E ainda assim, ali estava ela.

Sua mente parecia esmagada sob o peso de uma baleia, e aquilo a sufocava. Ela não sabia ao certo se se arrependia ou não. Era difícil decifrar. Talvez nem fizesse diferença. O certo é que aquela pergunta já não precisava de uma resposta clara. No fundo, a verdade era simples e cruel:

Ela sabia que não tinha mais volta.

Sabia que havia cruzado mais uma linha invisível e definitiva.

Sabia que, a partir dali, não era apenas uma mãe protegendo sua filha — era alguém que havia matado. E que teria que conviver com isso.

Todos os dias. Em cada silêncio. Em cada espelho.

Mas, mesmo assim, Mazzi respirou fundo, ergueu o rosto e lançou um último olhar à casa. Vasculhou o ambiente com os olhos como quem faz uma última varredura antes de partir. E então, sem hesitação, virou-se de volta para o corpo caído.

Deu um chute seco na cabeça do cadáver, não por impulso, mas por necessidade. Não foi brutalidade gratuita. Não foi fúria.

Foi afirmação.

Naquele gesto silencioso, Mazzi disse tudo o que precisava dizer.

“Eu aceito.”


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